"Então escrevo, me busco em frases feitas e frases inventadas, colocando uma palavra atrás da outra na tentativa de construir uma lógica, um atalho, uma emoção que eu consiga sustentar e repartir."

Martha Medeiros



As palavras estão trancadas. Como um hábito, esconder sensações e opiniões. Sentada à beira da janela, não enxerga a leveza do balançar verde do mato. A sua volta, uma vazia sensação de borrado, mosaico, fragmentos. Um cadeado em sua boca, uma rede de pesca rasgada em seu peito. Vida se esvaindo a cada sorriso anulado pela dor. Uma dor intensa, primitiva e incompreensível.

Ela sabe que não pode, não deve. Segredos, sempre segredos. Segredar a vida é o sucesso. Para quem? Não sabe ao certo de quem ouviu aquela máxima, mas passou a incorporá-la e agora não consegue escapar.
Escapar. Escapar. Para onde?

Não seria injusta alegando ser ruim a vida que ela mesma montou e modelou. Mas ali, debaixo daqueles vidros empoeirados, onde o sol quase não faz questão de passar, a vida não está em sua plenitude. Alguma coisa brota dentro de si, e ela não sabe nomear, ou distinguir, ou superar. Não é tristeza, nem medo, sem sombra, nem descaso. Diriam ser fome ou rebeldia sem causa, o que não se encaixa também. Não é solidão, não é abandono. Há amor, há risos, há nuvens engraçadas, há companhia. O que não há? O que falta? O que a impede de seguir adiante?

Um pássaro tentou voar do ninho. Ainda não estava preparado para aquilo, mas voou, e caiu. Talvez ela simplesmente não estivesse pronta para existir ainda, simplesmente. Mas calou. E sentiu. Sentiu doer no fundo da sanidade. E enxugou as lágrimas, e voltou a caminhar. O dia ensolarado chama, e a plateia pede um sorriso, mesmo que recheado de silêncios.

Natalia Velozo


Imagem: Keys of life 
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