"Então escrevo, me busco em frases feitas e frases inventadas, colocando uma palavra atrás da outra na tentativa de construir uma lógica, um atalho, uma emoção que eu consiga sustentar e repartir."

Martha Medeiros



Fingimos. Fingimos quando crianças. Fingimos quando adultos. Fingimos gostar de música cool no primeiro encontro. Fingimos ser feministas, anarquistas, entendidas. Fingimos felicidade. Satisfação profissional. Gostar de rúcula. Adorar verão. Ou inverno. Fingimos orgasmos quando o parceiro não finge que te seduz. Fingimos uma família feliz. Dinheiro no banco. Fins de semana na praia. Fingimos sorrisos, roupas, ânimo. Fingimos não ligar. Mas ligamos. Fingimos não ter medo. Nem preconceitos. Nem nojo. Simpatia. Conhecimento. Segurança. Insatisfações, por que não?
Dor.
Fingimos doer como Werther. 
Fingimos morte. Vida. Fingimos gostar da vida que nos obrigam a ter quando sabemos que ela é a morte de nossa alma.
Fingimos não ter medo da morte. Ou fingimos que não vamos morrer.
Fingimos modéstia. Arrogância. Simplicidade. Fome. Sede. Sono. Choro. Choro falso, tão fingido que chega a molhar.
Fingimos calma, ou impaciência. Empolgação, ou serenidade. Desprezo, ou atenção.
Muito, muito desprezo.
Fingimos olhares. Abraços. 
Fingimos amor. Amor. Fingimos amor o tempo todo.



Imagem: We heart it

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  1. Desde cedo somos ensinados a fingir. Começa com um "adorei o presente, era tudo o que eu queria!" e acaba num "o problema não é você, sou eu". Nos é dito que as vezes temos de mentir pra não magoar o outro. Mas ninguém explica que o fingimento é uma moeda de dois lados, ou uma faca de dois gumes. Everybody lies. Já dizia House que todo mundo mente, a diferença é sobre o quê.

    chasing-dragon.blogspot.com

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